A Cela Nova é uma velha freguesia rural amarrada no passado mas que precisa de saltar para o futuro. Queremos fazer deste sítio um espaço de reflexão sobre a nossa terra ....
Quinta-feira, 17 de Maio de 2007
Cela - alicerces no passado que esperança no futuro?
 
 
Cela - Sete séculos de história
Com sete séculos de existência, a freguesia da Cela foi uma antiga vila dos Coutos de Alcobaça e conta actualmente com cerca de 3200 habitantes repartidos por dezoito lugares, numa freguesia com cerca de 40 quilómetros quadrados de área. Apesar de ser uma terra muito antiga, existem poucos elementos que nos permitam conhecer o seu passado antes da presença dos Monges Cistercienses. Referem alguns autores que esta freguesia era atravessada por uma via romana, muito concorrida, cujo itinerário não passava por Alcobaça, mas pela Cela Velha e rente à Lagoa da Pederneira.
Os Coutos de Alcobaça gozavam de uma jurisdição especial e os colonos encontravam aqui benefícios especiais, que faziam com que muitos fugidos à justiça do reino aqui encontrassem asilo, acolhimento e sobretudo terra e trabalho para se fixarem. Os monges foram estabelecendo granjas ou herdades, que iam povoando, atribuindo aos colonos condições favoráveis para que se instalassem nos Coutos e aqui fixassem residência. Este foi o processo que acontecia com as outras freguesias e que aconteceu certamente também na Cela.
 
Os Forais da Cela
Os Forais eram documentos atribuídos pelos reis, em Alcobaça pelos Abades, que estabeleciam as regras de povoamento das terras e estabeleciam os tributos e os privilégios dos povos. A Cela teve também os seus forais.
Em 26 de Maio de 1286 D. Frei Martinho II, 15º Abade do Mosteiro de Alcobaça deu aos primeiros 60 habitantes da Cela a primeira Carta de Povoação, que estabelecia os direitos e deveres dos colonos. Estes deveriam pagar o quarto da produção de todas as culturas ao mosteiro, contudo na produção proveniente de terras desbravadas pelos próprios colonos, estes pagariam apenas um quinto da produção. Uma nova carta de povoação foi atribuída à Cela no ano de 1324 e no dia 1 de Setembro de 1514 a Cela recebeu Foral Novo que lhe foi atribuído pelo Rei D. Manuel I.
Contudo estas terras não estariam desertas e até já teriam alguns habitantes, mesmo antes de receberem forais. A existência da Cela Velha permite-nos concluir que já existiria ali um povoado, na zona mais costeira, que poderia ter funcionado como um posto avançado, para uma melhor estratégia de defesa da costa.
A povoação da Cela foi-se desenvolvendo e chegou a ser vila e sede de concelho. A agricultura teve aqui desde cedo um notável desenvolvimento ao ponto de aqui ter existido uma escola prática de agricultura.
 
A origem do nome da Cela
Segundo Baptista de Lima a origem do topónimo de Cela deve-se a uma antiga tradição segundo a qual algumas mulheres se enclausuravam em celas por toda a vida sem nunca de lá saírem, daí aparecerem cerca de duas dezenas de povoações portuguesas com este nome. Na Cela não existe tradição ou lenda que indique a existência de alguma destas “celas”. Para Mário de Sá o topónimo Cela poderá ter origem na palavra “cala, calha” ou “quelha”, que significava caminho, teoria que poderá ter alguma lógica já que neste local existia uma via romana que ligava Lisboa ao Norte e que passava junto à Cela Velha.
Porém, uma outra explicação que será talvez mais aceitável e mais lógica pois tem por base elementos relacionados à vida e actividade dos Monges de Alcobaça. Segundo uma velha lenda, um frade cisterciense instalou-se numa “pequena cela”, onde recebia os tributos dos habitantes destinados ao Mosteiro, que depois eram arrecadados na “tulha” (uma espécie de armazém), e por isso o local ficou a ser designado por “Cela”.
 
Igreja Paroquial de Santo André
O primeiro lugar de culto que existiu na Cela estava completamente em ruínas, quando D. Manuel I mandou edificar no mesmo local uma nova igreja, dedicada a Santo André. Da primitiva construção desse templo pouco resta e a última grande reconstrução efectuada em 1909 deixou-nos a talha barroca setecentista do altar-mor, a pia baptismal do séc. XVI e as seis gárgulas com formas de animais que guarnecem os flancos do templo. A Capela-mor é de abóbada e no altar está colocada a imagem do padroeiro Santo André.
O apóstolo, natural de Betsaida, é padroeiro de muitas igrejas em Portugal. Foi com o seu irmão Simeão, discípulo de João Baptista. Chamado por Jesus “abandona tudo e segue o Mestre”. Raramente André é nomeado no Evangelho, mas é um dos que interroga Jesus sobre o fim do mundo. É também ele que anuncia a Jesus que um jovem tem cinco pães e dois peixes, com os quais será realizado o milagre da multiplicação dos pães. Com Filipe faz de intermediário entre Jesus e os gregos. O nome de Santo André nunca mais se lê no novo testamento. Nada se sabe ao certo sobre o seu apostolado, mas antigas tradições dizem que evangelizou o Sul da Rússia e os Balcãs, vindo a ser crucificado na Grécia, no Acaia. São-lhe atribuídas, ao morrer, belíssimas considerações sobre o amor à cruz.
 
Pelourinho: símbolo do poder municipal
O Pelourinho foi construído em 1514, é por isso um monumento quinhentista erigido quando era Administrador Particular da região, D. Jorge de Melo. É um dos símbolos do poder municipal mais simples dos Coutos, sendo constituído por um cilíndrico liso, assente sobre três degraus circulares. A cerca de um metro acima do 3º degrau aparece um espigão de ferro com um orifício na extremidade. Até dois palmos abaixo do espigão o fuste está desgastado (segundo se crê pelo roçar das correntes dos condenados, presos ao espigão de ferro). No capitel cónico sobressaem as armas dos D. Abades de Alcobaça e a esfera dos descobrimentos.
O remate é feito em forma de pinha simples (pirâmide de quatro faces). Face voltada ao Norte: esfera armilar; face voltada a Sul: escudo (ou brasão do Mosteiro). Estas faces estão cobertas por uma coroa. As outras duas faces estão ornamentadas com o motivo de empenas de igreja.
 
Misericórdia e hospital da Cela
Nesta freguesia existiu em tempos uma Casa da Misericórdia inicialmente instalada numa ermida dedicada ao Espírito Santo. Foi fundada por António Rebelo com provisão Regia e Bula pontifícia do papa Gregório XIII, em 1585, tinha em anexo um hospital e uma albergaria.
Vários documentos referem que o Padre António Rebelo deixara os seus bens aos herdeiros com a obrigação de pagamento anual de dois alqueires de trigo à Misericórdia. O Padre António Fragoso instituíra um morgado com a obrigação de pagamento anual de seis alqueires à Misericórdia e Maria Pires deixou à Misericórdia uma fazenda que a princípio rendia dois alqueires de trigo e mais tarde passou a render quatro alqueires.
Desfrutando sempre de modestos recursos, tinha uma administração simples. Em 1772, a Mesa queixava-se de não de várias dificuldades. O gasto da cera e outros ligados ao culto eram tão grande que em 1776 nomearam capelão o Padre Manuel Marques de Almeida e determinaram que mais ninguém celebrasse missa na igreja a não ser o capelão. Abria-se, no entanto, uma excepção em relação ao Reverendo Dr. José Marques da Fonseca que já tinha sido provedor daquela misericórdia e seria o único padre existente na Cela, além do Capelão. Para se tornar efectiva esta proibição, a Mesa determinou que o sacristão não largava da mão a chave e tornaram-no responsável por qualquer infracção.
 
Cela Velha a povoação mais antiga
Na Cela Velha, actualmente com uma população de duzentas habitantes, destaca-se a Quinta da Cela Velha, o que resta de uma antiga granja actualmente também designada como Quinta Humberto Delgado e que tem resistido na sua traça primitiva.
É ainda na cerca desta Quinta que se situa a capela de S. Bento, a única das dez ermidas, cuja construção data dos primórdios da nacionalidade, embora existam referências mais ou menos lendárias que atribuem a sua construção ao ano 714 da nossa era. Certo é que esta ermida se trata do mais antigo templo existente na freguesia da Cela e um dos mais antigos no concelho. O interesse e valor desta capela particular está na sua antiguidade e na sua história, quanto ao resto trata-se de um pequeno templo de linhas simples e sem grandes ornamentos. Do seu recheio restam uma pequena imagem de S. Bento, uma imagem de Nossa Senhora e um crucifixo.
 
Drenagem dos campos: uma obra histórica
Os campos da Cela Velha estavam submersos durante vários meses por causa das chuvas que vindas das encostas inundavam a Foz do Alcoa e originavam a formação de grandes pântanos. A pedido da população local e com a intervenção também do próprio General Humberto Delgado o Estado procedeu à realização de importantes obras de recuperação dos campos e à criação de um sistema de escoamento das águas através de valas, que fizeram daquela vasta planície um espaço ideal para a horticultura. Foi uma notável obra de engenharia hidráulica que muito veio contribuir para o aproveitamento agrícola dos vastos campos, que se tornaram importantes referências sobretudo na horticultura, tradição que ainda hoje mantém.
 
Monumento ao General Humberto Delgado
Na Cela Velha ergue-se um monumento ao General Humberto Delgado, obra moderna de autoria do escultor alcobacense José Aurélio, recheado de simbolismo para homenagear a grande figura da oposição portuguesa, que ousou desafiar o regime ditatorial, quando se candidatou às pseudo-eleições livres para a Presidência da República de 1958. Esta proeza valeu-lhe a designação de “General sem medo” mas pagou com a vida a batalha que travou em prol dos ideais da liberdade, sendo assinado em Espanha a mando da PIDE.
O monumento em cimento ergue-se no morro sob a forma de pequenos gomos, que representam as forças opressoras fragmentadas por um bloco ao centro simbolizando o estilhaço da força da liberdade e dois pequenos gomos estão no centro da povoação. Este monumento foi inaugurado em 22 de Julho de 1976, com a presença do então Primeiro-Ministro, Mário Soares e muitos milhares de pessoas.


publicado por Joaquim Marques às 00:16
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2 comentários:
De João Fialho a 30 de Abril de 2009 às 17:19
Vou utilizar este espaço, não para fazer um comentário mas sim para agradecer possibilitarem a este Lisboeta de gema (devo dizer) manter contacto com a terra que adoptei e onde espero um dia viver.

Nasci em Lisboa mas, com um ano de idade criei um laço com a Cela que perdura ao longo deste 30 anos.

A minha mãe foi colocada a dar aulas em Alcobaça e eu vim com ela e o meu pai ( que ia e vinha para LX. todos os dias) viver para a Cela onde morava a minha bisavó.

O primeiro ano da minha vida foi a brincar na eira entre feijão verde e o azul do mar que se consegue ver de casa da minha bisavó .

Depois desse ano voltei para Lx. para nunca mais partir, no entanto sempre acalentei a esperança de um dia voltar á cela não para passar o fim de semana como por vezes faço, dando vida à casa da minha bisavó , mas para viver...

Quando me licenciei em História foi para trabalhar no Mosteiro de Alcobaça, quando me pós-graduei em gestão e valorização do património foi para trabalhar no Mosteiro, mas no entanto isso nunca aconteceu, não que não tenha tentado, não que não tenha tido reuniões com o director do Mosteiro... mas não deu...nunca deu.
O ano passado trabalhei numa excelente colecção museológica privada que existe na Cela, ai pode passar um temporada na cela e relembrar os caminhos da Cova da Fonte.

Com este blog posso agora à distancia sentir o palpitar da cela e sentir que nunca parti...


De Joaquim Marques a 1 de Maio de 2009 às 13:43
Caro Amigo
Gostei da mensagem que nos deixou e da satisfação com que fala desta terra. Este nosso espaço, pouco actualizado é certo, é um espaço onde gostamos de pensar em voz alta e de falar da Cela, daquilo que é e ou daquilo que poderia ser ou que gostavamos que fosse.
Bem quanto à colecção museologica de que fala, presumo estar a falar de uma que foi adquiriada pela Câmara e que conheço. Espero que ela seja posta ao público tão rápido quanto possível
Volte sempre.

Joaquim Marques


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